Entre 2024 e 2026, a taxa Selic permaneceu em patamar que muitos investidores brasileiros não viam há anos. O efeito colateral foi previsível: o Tesouro Direto — programa do Tesouro Nacional que permite compra de títulos públicos por pessoa física — voltou a aparecer em conversas de família, grupos de trabalho e feeds de rede social. A pergunta não é mais "o que é Tesouro?", mas "qual Tesouro faz sentido agora?"
Esta reportagem examina as três famílias de títulos mais negociadas na plataforma, os riscos que persistem mesmo com juros altos e os erros que vemos repetidos entre investidores intermediários.
Tesouro Selic: a reserva que rende
O Tesouro Selic acompanha a taxa básica de juros. Em cenário de Selic elevada, ele oferece rentabilidade diária com baixo risco de crédito — o emissor é o governo federal. Para reserva de emergência ou parcela conservadora da carteira, continua sendo referência. A marcação a mercado é mínima: se você precisar vender antes do vencimento, a oscilação de preço tende a ser pequena.
O ponto de atenção é a tributação regressiva do Imposto de Renda, que vai de 22,5% em resgates de até seis meses até 15% após dois anos. Ainda assim, com Selic em dois dígitos, o retorno líquido costuma superar a poupança de forma consistente.
Prefixado: aposta na queda dos juros
No Tesouro Prefixado, a taxa é fixada na compra. Se os juros caírem depois, o preço do título sobe — e quem vende antes do vencimento pode ter ganho de capital. Se os juros subirem, o preço cai. Em 2026, com mercado debatendo o início de um ciclo de cortes, prefixados longos voltaram a atrair quem acredita que a Selic atingiu o pico.
Comprar prefixado longo sem tolerância a ver o extrato vermelho por meses é confundir convicção com aposta.
O risco de marcação a mercado é real. Investidores que compraram prefixado em 2020, quando juros estavam baixos, viram perdas temporárias significativas quando a Selic subiu em 2021 e 2022. O título paga o prometido no vencimento — mas o caminho até lá pode ser desconfortável.
IPCA+: proteção contra inflação com componente de juros reais
O Tesouro IPCA+ paga uma taxa fixa mais a variação do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo. É o título preferido de quem planeja aposentadoria ou objetivos de longo prazo — educação dos filhos, compra de imóvel daqui a dez anos. Com juros reais elevados, as taxas ofertadas em leilões do Tesouro têm sido historicamente atrativas em comparação com a década anterior.
Mas IPCA+ longo também sofre marcação a mercado. A diferença é que, mantido até o vencimento, o investidor recebe inflação mais a taxa contratada — independentemente das oscilações intermediárias.
Taxa da corretora e fracionamento
O Tesouro Nacional cobra taxa de custódia de 0,20% ao ano sobre o saldo acima de R$ 10.000. Corretoras podem cobrar taxa adicional de administração — muitas zeraram essa cobrança para atrair clientes, mas vale confirmar antes de aplicar. O fracionamento permite comprar a partir de cerca de R$ 30 em títulos selecionados, o que democratizou o acesso, mas também facilitou compras impulsivas sem estratégia.
O que muda com juros altos — e o que não muda
Juros elevados tornam a renda fixa mais generosa, mas não eliminam a necessidade de encaixar cada título no objetivo financeiro. Selic para liquidez, IPCA+ para longo prazo, prefixado para quem tem convicção sobre o ciclo — essa lógica permanece. O que muda é o tamanho do prêmio: com Selic alta, o custo de oportunidade de errar o título é maior, porque a alternativa conservadora paga bem.
Não há fórmula única. Há perfil de risco, horizonte e disciplina. O Tesouro Direto continua sendo uma das formas mais transparentes de investir em dívida pública no Brasil — e, em cenário de juros elevados, merece atenção cuidadosa, não euforia.
Atualizado em 28 de maio de 2026.